Uma “birra”, principalmente em público, parece pôr em xeque a nossa capacidade de “educar” (ou de controlar?) nossos filhos. Olhares e julgamentos tendem a nos deixar incomodados e instáveis e normalmente agimos por impulso, tentando somente colocar um ponto final na cena.

O conhecimento é o nosso maior aliado para lidar com tudo isso, neste texto você vai entender mais sobre as famosas “birras” e obter dicas para lidar com elas.

Inicialmente, é importante entender que as “birras” acontecem quando nossos filhos passam por uma sobrecarga emocional. Todos nós já tivemos dificuldade de lidar com nossas frustrações e por mais que a gente não lembre muito bem, essa dificuldade na infância é muito maior.

Isso acontece porque as crianças têm os mesmos sentimentos que os adultos, mas contam com poucas estratégias para gerenciá-los. As crianças pequenas não contam nem com a linguagem. E, conforme esclarece Jane Nelsen et al. (2018, p. 85),

“a parte do cérebro responsável pela regulação emocional e por se acalmar (o córtex pré-frontal) não está completamente madura até que a pessoa atinja 20 a 25 anos de idade”

A sobrecarga emocional é parte do desenvolvimento infantil, sobretudo quando falamos de crianças pequenas.  Muitas vezes não conseguimos ter um olhar atento sobre a criança para entender o que está acontecendo por trás do comportamento lido socialmente como descabido. Desta forma, nossa atitude passa a ser punitiva ou permissiva, visando, sobretudo, cessar o comportamento.

Entendemos que estes não são os melhores caminhos. Pois, quando somos punitivos, agimos com violência, obrigando nosso filho a nos obedecer. Desta maneira, não estimulamos seu senso crítico e sua autonomia, como nos lembra Elisama Santos (2019, p. 18)

“o conceito de ‘obediência’ traz consigo impotência”

Nesta perspectiva, não é difícil entender porque há tantas pessoas sem iniciativa no mercado de trabalho, por exemplo. O posicionamento apático é reflexo de uma educação na qual as crianças só fazem aquilo que o adulto mandou e assim seguem sendo “mandadas” pelo resto da vida, este é o ensinamento que passamos ao sermos autoritários. Além disso, uma relação de e dominação não gera laços, quantos adultos vemos afastados de seus pais, não é mesmo? Gosto muito de uma frase citada por Santos (2019) intimidade é porta que abre de dentro e não adianta tentar arrombar.

Quando somos permissivos, entregamos à criança o que ela deseja, mesmo não sendo o que ela precisa. Ensinamos que o episódio de “birra” é um bom caminho e não demonstramos empatia, porque só nos preocupamos em cessar seu comportamento. Além disso, é interessante compreender que todos sentimentos são dignos e nos trazem mensagens sobre nossas necessidades e que cessar sentimentos incômodos com incentivo externo não ajuda a acriança a lidar com eles.

Diante do exposto fica a questão – como agir em uma situação de sobrecarga emocional? Primeiramente, é preciso ter em mente qual a sua intenção. Ao entender que as sobrecargas emocionais são parte do desenvolvimento e desejar “usar” a situação como uma oportunidade de aprendizagem tudo pode ficar mais leve.

Para Daniel J. Siegel e Tina P. Bryson (2016), o primeiro passo é a conexão, em suas palavras:

“nós precisamos lutar contra o impulso de punir, dar sermão, estabelecer regras ou mesmo redirecionar, imediatamente. Em vez disso, nós precisamos nos conectar”

Para os autores a conexão tem o benefício ímpar de passar a criança da reatividade para a receptividade. Pois, a empatia do cuidador faz com que ela se sinta amada e diminui a sensação de isolamento ou de ser incompreendido.

Nesta perspectiva, é interessante conhecer os passos a seguir, que são inspirados na obra de Jane Nelsen et al (2018):

  • procure se acalmar, se afaste um pouco se for necessário, respiração ajuda, lembre-se que seu filho precisa de você;
  • proporcione segurança e controle de possíveis danos, afaste objetos que possam ser atirados ou danificados;
  • evite discursos que só aumentarão a sua tensão e a do seu filho;
  • foque em confortar seu filho e não em resolver o “problema”;
  • espere a tempestade passar, mantendo-se gentil e firme, seja empático e deixe que seu filho expresse o que está sentindo, valide seus sentimentos;
  • se for necessário, ajude seu filho a nomear e perceber seus sentimentos; e
  • por fim, evite se apegar ao comportamento do seu filho, lembre-se que é parte do seu desenvolvimento.

Depois que o clima estiver mais tranquilo, você pode explicar brevemente o comportamento inadequado, ajudando seu filho a fazer reparos no ambiente. É importante não enfatizar o comportamento, não retomando o assunto em novas situações. Perdoando o comportamento inadequado dos nossos filhos, ensinamos eles a perdoar e entender que um é erro é uma oportunidade de aprendizagem.

Para evitar momentos de sobrecarga emocional, podemos avaliar o temperamento e ritmo da nossa criança, deixando exigências irreais de lado. Conforme Siegel e Bryson (2016, p 99)

“quando somos proativos, ficamos atentos para as vezes em que sabemos que um mal comportamento e/ou um ataque de fúria está próximo de nossos filhos e intervimos, tentando orientá-los a desviar deste campo minado potencial”

Porém, nem sempre é possível prever e intervir antecipadamente, assim, conseguir atuar de forma adequada em situações como a de sobrecarga emocional, sem ser punitivo ou permissivo, é uma contribuição ímpar para o desenvolvimento da inteligência emocional dos nossos filhos. Pois, conforme Daniel Goleman nos lembra: a família é basilar para o desenvolvimento da inteligência emocional que é a principal responsável pelo sucesso ou insucesso dos indivíduos.

Referências

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária que Redefine o que é Ser Inteligente. Tradução: Marcos Santana. 24ª impressão. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

NELSEN, Jane et al. Disciplina positiva para crianças de 0 a 3 anos: como criar filhos confiantes e capazes. Barueri, SP: Manole, 2018.

SANTOS, Elisama. Educação não violenta: como estimular autoestima, autonomia, autodisciplina e resiliência em você e nas crianças. Rio de Janeiro/ São Paulo: Paz e Terra, 2019.

SIEGEL, Daniel J; BRYSON, Tina P. Disciplina sem drama: guia prático para ajudar na educação, desenvolvimento e comportamento dos seus filhos. São Paulo: nVersos, 2016.